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Dúvidas

Eu não sou treinador, mas trabalho com administração e gestão de esporte de alto rendimento.

Este espaço é apenas uma maneira de me expressar no esporte que mais amo e por um símbolo nacional, a seleção brasileira de futebol, que deveria voltar a ser pública e não privada como quer a CBF.

O sério e capacitado Micale, apesar de alguns erros na final contra o tático e disciplinado selecionado alemão que nos causaram desnecessário sofrimento no sábado, conseguiu resgatar um pouco de nossas características ofensivas, passes e futebol coletivo.

Indo do ódio ao carinho, num perigoso e enganoso ufanismo! Bom trabalho, mas devagar! Primeiros passos muito bem dados, mas calma!

Daí chega o não mais que merecido treinador Tite e solta sua lista nesta segunda-feira para as duríssimas batalhas ante o Equador e Colômbia, com nosso legado de Dunga na sexta colocação atual nas Eliminatórias.

Se vencermos as duas partidas (muito difícil!), talvez alcancemos a zona de classificação para Russia 2018 momentânea (leia-se combinação estimada de resultados).

Gostei da convocação de 7 jogadores da seleção olímpica como o surpreendente goleiro Weverton na camisa 1 verde da equipe, a dupla defensiva Rodrigo Caio e Marquinhos (este o único esperado!), o melhor jogador tático e de liderança entre os meninos Renato Augusto, o agora coletivo Neymar (assim esperamos e sem ser capitão e de boca fechada, por favor!) e os atacantes Gabriel Jesus e Gabigol.

Por que o responsável por ter feito o elo de ligação entre meio e ataque e de maior movimentação tática Luan não foi chamado? Por que o bom Taison do Shakthar em seu lugar?

Por que nem Micale e nem Tite dão tanta importância a Rafinha Alcântara? O Giuliano do Zenit tem qualidade, mas Hernanes ficou no limbo?

Lucas Lima vem de contusão e não está tão bem, mas é uma boa aposta em continuar sendo convocado, mas também Ganso não seria mais interessante para compor o elenco em alternativas de jogo?

Claro que defendo as convocações de Daniel Alves e Marcelo para as laterais, que são os melhores do mundo e acredito que Tite conseguirá, aos poucos, aprimorar seus jogos defensivos tão deficitários, na composição coletiva.

Será que conseguirá, mesmo com ínfimos dias de treino, com apresentação direto em Quito? Conversa e posicionamentos?

Porque Fágner demorou para ter esta merecida oportunidade e Filipe Luís pode render mais numa seleção de fato treinada e não somente escalada!

O goleiro Marcelo Grohe passa confiança e Alisson me causa dúvidas. Por que Diego Alves fica de fora, ainda mais sendo um dos melhores do mundo e joga muito bem com os pés?

Miranda pode até ser capitão, mas não é mais o mesmo há muito tempo. E Paulinho, nesta versão futebol chinês do time do Felipão, o que deve ter melhorado desde o fracasso na Copa de 2014 entre a reserva no Tottenham e o “poderoso” campeonato local?

Pode ser que eu queime a língua (e tomara!), baseado nas atuações de Renato Augusto e do convocado zagueiro Gil na “era Dunga parte XX”, mas…

Casemiro e Rafael Carioca, duas ótimas opções para o “1” do 4-1-4-1 que Tite gosta em opção tática. Mas será que vai jogar desta forma? William Arão e Thiago Maia (do time olímpico) não mereciam maior atenção?

Confesso que tenho ainda muitas dúvidas sobre William, um jogador que oscila muito em performance, mas Philippe Coutinho é o oposto. Tite conseguirá utilizá-los de forma adequada? Até agora não conseguiram na seleção!

Os jogadores machucados e/ou em retorno de temporada, os europeus neste caso, que ele convocaria e não pôde naturalmente mencionar nomes devem ter sido Thiago Silva e Douglas Costa, para mim, essenciais.

E o Talisca, no limbo com o Hernanes?

Dúvidas quanto à importância do trabalho do Edu Gaspar e do Sylvinho de auxiliar.

Dúvidas porque não confio em pessoas, como estas acima, que elogiam uma entidade caindo aos pedaços, não pelos funcionários e colaboradores que lá estejam, mas da turma que comanda!

Dúvidas engrandecem, mas também preocupam, como estou agora.

Porque queria o legado ofensivo de Micale e não alguns antigos personagens (pouco, é verdade!), que só me trouxeram mais e mais dúvidas.

Não podemos esquecer dos 7 a 1, mas Tite tem razão em afirmar que temos que seguir em frente porque isto nos tem dado muita ansiedade e medo de fracassar no meu entendimento!

Psicologia profissional, pelo jeito, passa bem adiante por conta de priorização das resenhas, do discurso professoral quase pastoral e da experiência com boleiros.

Do Maracanã aos rincões da América do Sul, já se faz essencial há muito tempo!

 

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Devagar com o título

Merecida conquista pela entrega, por melhorias em 20 dias de trabalho, mas cuidado com o ufanismo e análise passional.

Precisávamos deste título para que possamos evoluir e reconstruir nosso futebol. Um primeiro passo e uma lavada na alma, apenas isso, ok?

Devagar para não escapar do planejamento, devagar para não se eximir do trabalho duro, devagar para repensar.

Devagar para ganhar experiência e vivência. Devagar para testar alternativas. Devagar para ousar, mas com responsabilidade. Este último ítem faltou a Micale hoje, principalmente como a formação da equipe que começou a partida. Devagar demais para tomar decisões urgentes e corretas.

Neste aspecto tático e tantos outros, procurei detalhar em vídeos ao longo das pausas da partida, decidida por pênaltis. Mais em facebook.com/3nacopa. Vale a pena acessar.

Está tudo nos vídeos neste link acima porque o mais importante, neste momento, é enaltecer a entrega da equipe, as tentativas de Micale e a importância emocional de um título como este.

Porque, independente do ouro (o menos importante neste momento do nosso futebol), é necessário continuar, repensar, trabalhar e reconstruir.

Muito pela frente, devagar!

Calma, paciência, inteligência, treino, mentalidade e suor!

 

O legado da História

Antes da final da seleção olímpica brasileira ante os alemães no Maracanã, valendo medalha de ouro (o que menos importa!) e, principalmente diante de um treinador ousado, capacitado e sonhador que optará por uma equipe altamente ofensiva como resgate de nossa história num torneio pouco expressivo tecnicamente, minha mulher, Renata de Albuquerque me concede a honra de escrever neste espaço:

O legado da História

por Renata de Albuquerque

                “Eis o malandro na praça outra vez”

Chico Buarque

Micale não é um herói. Micale não é um vilão. Micale apenas percebeu o óbvio: que nosso futebol está no fundo do poço. E quem não tem nada a perder pode se dar ao luxo de apostar muito alto.

A final olímpica não é a revanche contra a Alemanha. Aquele 7 x 1 não tem como ser vingado. É mancha indelével e, como tal, deve ser aproveitado para ser constitutivo de nossa história, para que saibamos que já fomos os piores e que aquela vergonha não pode se repetir.

Micale quer alegria e ataque no jogo. Micale quer que o futebol brasileiro se reconecte com sua verdade: meninos descalços jogando na terra batida, tendo por gol duas garrafas de refrigerante. O mesmo chão onde nasceu Garrincha; o mesmo chão de onde veio Macunaíma, anti-heróis que explicam quem somos enquanto povo.

Micale pode ter se inspirado em Guardiola. Mas, eu gostaria que ele também tivesse lido Darcy Ribeiro e Antonio Candido, especialmente sua magistral Dialética da Malandragem. Porque assim entenderia que, para além de futebol, é preciso levar em conta que o futebol de Gabigol, Borel, Luan e companhia é futebol brasileiro, jogado por gente que tem no sangue uma tradição de complexos de vira-latas – e que, por isso, tem o poder de ressignificar as derrotas e temer as vitórias.

Senão, porque será que todas as medalhas “esperadas” – como as do vôlei feminino e do judô, por exemplo – não vieram, enquanto medalhas “inesperadas”, de atletas de quem nunca se ouviu falar antes, são agora comemoradas? É porque a pressão não nos cai bem, talvez. Ou, como diria Macunaíma, “ai que preguiça” (e mesmo assim, derrotado, torna-se estrela).

Se Micale será considerado herói ou vilão, a esta altura não interessa. Porque ele será o que for mais útil à cartolagem e à imprensa esportiva. O que importa, de verdade, é que Micale não veio para se tornar parte de uma estatística. Ele não veio para ser mais um dos inúmeros técnicos que não conseguiram legar “o Ouro Olímpico para o futebol do Brasil-sil-sil”. E ele também não veio para ser o comandante do Ouro Olímpico que “É ééééééé – do Brasillllll!!!”.

Ele veio para deixar sua assinatura no esporte. Se saberemos reconhecer essa grandeza, só a História dirá.

 

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